Daniel Buanaher: se preparando para formar obreiros na África

Daniel Buanaher: se preparando para formar obreiros na África

Daniel Buanaher: se preparando para formar obreiros na África

 

Do extremo norte de Moçambique, da província Cabo Delgado, que tem como capital, a cidade de Pemba, Daniel Buanaher é um jovem cristão que abriu mão da faculdade de engenharia de informática, para vir para o Brasil estudar teologia e se preparar para depois voltar para o seu país e formar obreiros nativos.

Buanaher está sendo graduado em teologia pelo Instituto Bíblico das Assembleias de Deus – IBAD e em Pedagogia pela UNOPAR em Pindamonhangaba, SP. Veio para o Brasil através da Igreja Assembleia de Deus de Cobilândia, Vila Velha, ES, liderada pelo pastor Jair Chaves Pereira; e, foi descoberto pelo casal de missionários Williham e Waldirene Scardua que trabalham no país africano, mantidos com o sustento missionário pela AD-Cobilândia, assim como Daniel com os seus estudos.

Seara News foi conhecer de perto o projeto da igreja entrevistando primeiro o pastor Jair Chaves e sua esposa (Leia a entrevista) e agora a entrevista é com próprio Daniel Buanaher que nos contou um pouco da sua história. Confira!

Por Paulo Pontes

Conte sobre a sua cidade, das pessoas, do povo, das tribos…

Lá tem uma divisão que é de tribos. Por exemplo, eu venho da tribo Makua. Tem outra tribo chamada Mani. Antigamente, há alguns anos atrás, havia grande desavença entre as tribos. Um rapaz não podia se casar com uma moça de outra tribo, e vice-versa. Agora que estamos entrando no tempo da modernidade estes costumes muitos pais estão abandonando, estão sendo quebrados, e estão deixando os filhos e filhas se casarem com jovens de outras tribos, como quiserem. Mas, antes existiam desavenças muito grandes, principalmente da tribo Makua, que não permitia o casamento com os da tribo Makonde. Os makondes são os que libertaram Moçambique quando expulsaram os colonos portugueses. Os makondes foram os promotores da libertação nacional contra o colonialismo português. São conhecidos como um povo muito cruel. Hoje é muito menos, mas ainda existe um pouco disso lá. Graças a Deus a relação entre os povos lá é muito boa hoje.

Você já nasceu em uma família evangélica?

Pois é, eu graças a Deus, como poucas crianças africanas, nasci num lar evangélico. Meu pai veio do catolicismo, contudo, praticava bruxaria. Lá tem desse negócio, as pessoas seguem uma determinada religião e ao mesmo tempo se envolvem com bruxaria, praticam a feitiçaria. Minha mãe veio do islamismo, e também de uma família muito bruxa. Meus pais aceitaram a Jesus e tiveram o primeiro filho já no evangelho.

Seu pai é pastor, você pretende seguir a vocação dele?

 

 

Meu pai é pastor há 20 anos e eu só tenho 22 anos de idade. O que separa é muito pouco. Quando ele se converteu ao evangelho, a igreja tinha acabado de ser fundada lá em Pemba, minha cidade. O evangelho tinha chegado há pouco tempo. O irmão que estava lá, o pastor, tinha sido enviado da capital, mas ele teve que voltar à capital, e então, procurou alguém que pudesse assumir a direção da igreja. Ele disse que orou e jejuou e Deus lhe mostrou que seria meu pai. Então eu nasci no evangelho e fui educado com princípios bíblicos, porém, me só fui me entregar para Jesus quando tinha 15 anos, e fui batizado no mesmo ano. Graças a Deus, foi assim.

Você veio ao Brasil para estudar teologia. Como surgiu seu desejo pela causa do evangelho?

Quando eu aceitei a Jesus e me entreguei a ele com 15 anos, decidi me integrar na obra de Deus. Comecei a orar e a jejuar. Fiz um jejum de 90 dias com meus amigos. Nesse jejum de 90 dias, certa noite eu estava dormindo junto à porta da igreja, não sei dizer o que foi, se uma visão ou um sonho, mas eu vi quando de repente uma fumaça vinda do céu procurando entrar no templo, mas como a porta estava fechada a tal fumaça começava a voltar e eu ficava triste, mas ela não voltava e passava pela janela. A fumaça veio sobre mim, me envolvendo e me enchendo. Acordei, procurei entender o que era, mas não entendia, pois era muito novo. Comecei a pesquisar e a orar a Deus.
Na noite seguinte, dormindo no templo – porque lá quando a gente jejua fica no templo e não é proibido – voltei a sonhar… Ministrava a Palavra de Deus para vários obreiros em Moçambique. Já despertado, depois da oração entendi que Deus primeiro me enchia com a glória dele e depois me capacitava para uma missão. Quando recebi essa visão, Deus colocou no meu coração o desejo de estudar a Palavra dele. Entrei para a faculdade, mas sabia que não ficaria por lá, precisava estudar mais a Palavra de Deus. Estava fazendo Engenharia em Informática.

O que aconteceu depois que você entendeu que era um chamado de Deus?

Após o meu primeiro ano na faculdade, o pastor Williham Scardua ligou para mim e disse: “Conversei com o pastor Jair Chaves, e escolhemos você para estudar teologia no Brasil”. Confesso que fiquei meio confuso, orei a Deus e disse: “Senhor, eu sei que tens me chamado para uma missão, mas também tenho a faculdade para fazer, dá um bom dinheiro, Moçambique realmente tem poucos engenheiros de informática…”. Depois de muitos momentos de oração acabei decidindo vir para o Brasil, creio que é o cumprimento da visão que tive há cerca de sete anos, e quando voltar para Moçambique estarei ensinando a Palavra de Deus. Não estou estudando para ser um dos maiores pregadores de Moçambique, minha preocupação é a formação de obreiros nativos.

Em geral os missionários enfrentam muitos desafios para alcançar seus objetivos. Você se sente disposto e pronto para isso?

Bem, depois de ter sido chamado para o Brasil, uma missionária argentina, que estava em Moçambique me chamou e disse: “Daniel, Deus falou comigo acerca de você. Disse que vai te fazer passar por provações e você vai chorar muito”. Não lembro bem da expressão, pois ela falou em espanhol, mas era algo que chamou de “oliva”. “Ele vai te fazer como a oliva. Vai estudar sobre isso porque Deus vai te fazer passar como o fruto da oliveira, ser moído e depois servir para alguma coisa, que é a unção”. Recebi a palavra, fui para casa. O primeiro acontecimento depois dessa palavra que me marcou foi o assassinato do meu avo. Ele estava indo para a machimba (roça) trabalhar, e a esposa dele estava doente. Nessa ida ele foi assassinado por causa de uma bicicleta. Foi uma perda muito grande. Meu avô era ancião da igreja. Depois de passar por essa situação, contei para a missionária argentina, e perguntei se era isso que Deus tinha falado. Ela respondeu: “Ainda falta mais, Deus disse que você vai passar por muitas provações”.
Depois, chegou a hora de ir para Maputo, a capital de Moçambique, para tratar do meu visto. Disseram que demoraria 5 dias para ser liberado, tanto que minha viagem estava marcada para dezembro. Indo à Maputo, levei todos os documentos e deixei na embaixada brasileira, mas o visto só saiu após 30 dias. Foi um tempo difícil para mim, de muitas idas e voltas. Onde eu estava hospedado as pessoas perguntavam: “Daniel, está tudo bem contigo? Você vai para o Brasil estudar para fazer a obra, alguma coisa não deve estar bem”. Eu só respondia: “Está bem, está bem!” Até que chegou uma hora em que o dono da casa me disse: “Daniel, toma dinheiro e volte para sua cidade”. Em meio a tudo isso, acabei perdendo meus documentos, quando sai para fazer um depósito. Voltei frustrado, dobrei os joelhos e fui orar a Deus, com lágrimas nos olhos agradeci a Ele e disse: “Senhor, o que farei agora depois de um mês?” Foi quando meu celular começou a chamar, e apressadamente eu atendi, e a pessoa do outro lado dizia: “Senhor Daniel, o seu visto está pronto!” Fiquei feliz, saí e fui dar a notícia para os donos da casa. Percebi que era outra provação.

Depois que chegou ao Brasil você foi acometido de dengue num estágio bem agressivo. Pensou em desistir e voltar para o seu país, ou achou que não voltaria mais? Como foi passar por essa situação?

Daniel Buanaher: se preparando para formar obreiros na África

Algumas semanas depois de chegar ao Brasil tive dengue. Doente, fiquei internado no hospital de Vila Velha por 10 dias. Confesso que passou pela minha cabeça que alguma coisa não estava bem, que Deus não estava nesse negócio, e que não estava aprovando a minha vinda para cá. Contudo, orava para que se cumprisse a sua vontade. Eu olhava para o pastor Jair Chaves e sua esposa e percebia que estavam muito preocupados com o meu estado. Todos pensavam que eu iria morrer, e eu já havia entregado minha vida nas mãos de Deus. Depois desse tempo, acabei ficando sarado, até o médico foi surpreendido quando entrou no quarto. Num dia eu estava mal, no outro eu estava sentado na cama com um semblante de quem estava com saúde perfeita. Graças a Deus tive alta do hospital, e depois fui para o IBAD em Pindamonhangaba, SP. Diante de tudo que passei, acredito que vou alcançar o meu objetivo, em nome de Jesus.

Como você está se saindo nos estudos?

A visão de todo africano é que todo brasileiro, todo branco é superior. Quando os brancos vão para Moçambique, a gente quer ficar perto e aprender dele. Existe a ideia que o branco tem algo para dar e ensinar. Então, estou muito surpreso comigo e com Deus, porque quando fui para o IBAD, orei a Deus e disse: “Senhor, não quase nada de Bíblia, dependo de ti, me ensina”. Estando lá, aconteceu o primeiro milagre, quase todos do internato simpatizaram comigo. Meu colega de quarto até reclamou comigo: “Assim não dá para estudar Daniel, todos estão entrando aqui para te cumprimentar, te abraçar, conversar e ouvir você falar da África”. Outra coisa é que Deus me abençoou tanto que comecei a ser um bom aluno e me destacar na sala de aula. Os meus colegas me procuravam quando tinham alguma dúvida sobre os exercícios, outros vinham ao meu quarto para perguntar a minha opinião sobre o trabalho deles, pediam para ver se estava correto, e até mesmo para verificar erros de português. Isso me fazia rir, pois me pedia para avaliar seus trabalhos. Mas sobre isso, não falava com ninguém, apenas orava a Deus, porque nunca imaginei brancos brasileiros me pedindo ajuda para os seus trabalhos. Dou graças a Deus, que tem me ajudado e meu desempenho será ainda melhor.

Como são realizados os cultos e como é a igreja em Pemba?

Os nossos cultos começam às 9h e terminam às 12h. Das 9h às 11h é só louvor, muito louvor; e, das 11h às 12h é pregação. Posso garantir que os louvores não são para qualquer um. Dança-se mesmo, todos cantam e alegram-se no Senhor. O povo é muito alegre. É uma bênção. Bênção mesmo! Aqui, quando estamos cantando, tenho que me conter para não dançar como fazemos lá na África. A igreja está no meio de um povo muçulmano. A cidade tem cerca de 83% de islamismo, e ser cristão lá não é fácil. Na escola ou faculdade, quando nos perguntam qual a nossa religião, responder que somos cristãos é como se fosse algo pejorativo, nos olham com desprezo, e algumas vezes somos excluídos. Mas acredito que os tempos virão e as coisas serão muito diferentes, pois Deus tem algo muito importante para Moçambique.

Como foi crescer em meio à hostilidade do preconceito religioso?

Na minha fui menino da escola dominical, tinha amigos, alguns me aceitavam e outros não. Certa ocasião, quando já era adolescente, foi marcado um encontro entre cristãos e muçulmanos, houve apedrejamento e muitos danos físicos. Eu tinha inconformismo contra aquela situação, porque indo para a igreja levando a Bíblia, as pessoas olhando com desprezo. Depois que cresci, me dediquei à Palavra de Deus e ele me mostrou que eu não estava fazendo da melhor forma, que as coisas tinham que ser resolvidas com a Palavra e não com pedras.

Pode nos contar sobre a sua família?

Sim, somos uma família comum, com origem na tribo Makua. Éramos em 5 irmãos, mas um faleceu vitima de malária, quando eu tinha 12 ou 13 anos de idade – a malária mata muita gente lá, dá muita dor de cabeça para o governo e leva tristeza às família. Agora somos 4 irmãos, mas além de nós, em nossa casa moram 3 sobrinhos da minha mãe e 2 do meu pai. Ao todo incluindo pai e mãe, somos uma família de 11 pessoas morando numa casa de 3 quartos. Lá tem muitas famílias morando desse jeito.

Como é a economia na sua região?

 

O grande potencial da minha cidade é o turismo. Lá tem praias maravilhosas… Não sei se é verdade, mas dizem que é a terceira maior baía do mundo e recebe muitos turistas europeus e americanos. Isso gera receita para o governo.
Mas não são todas as famílias que estão bem assim. Por causa desse turismo dos brancos que vão lá, o comércio é muito caro. Pemba é a cidade mais cara de todo Moçambique, e as pessoas, cidadãos comuns, principalmente os aldeões às vezes não podem comprar coisas porque são muito caras, e isso é prejudicial.

Daniel Buanaher: formar obreiros na África

Vista parcial da cidade e litoral de Pemba (foto reprodução) – clique para ampliar

A África que a mídia mostra é verdade?

É verdade, mas não somente aquilo. A África onde nasci e moro, na capital da província, quem for para lá não vai encontrar essa estrutura que Vila Velha (ES). Encontrará uma estrutura simples e humilde, mas não aquela que a mídia mostra. Saindo da cidade, que é a capital, apenas uns 8 quilômetros, temos as aldeias, e todas elas sustentadas pela cidade. Nessas aldeias a situação muitas vezes é de miséria. O governo diz que é laico, mas quando vai inaugurar obras convida um líder religioso tradicional (que para mim é um feiticeiro) para a cerimônia e dedicam obras aos espíritos dos antepassados para eles protegerem. Em minha opinião isso é muito ruim para o país.

A África precisa de mais missionários?

Sim, precisamos de missionários! Precisamos não somente de missionários, mas, também das orações das igrejas no Brasil. Apesar de existirem muitos muçulmanos, várias práticas ocultas, também tem um povo que precisa de fora e das orações dos irmãos brasileiros, para continuarem testemunhando de Cristo para a população, e o nome do Senhor seja glorificado.

O que os irmãos e a igreja em Pemba esperam de você, quando retornar?

Esperam Bíblia! Eu já ensinava lá, atuava na igreja. Com certeza eles não esperam um teólogo, ou doutor em teologia, mas quem lhes ensine a Bíblia. Meu objetivo é estudar aqui no Brasil para depois voltar para Moçambique, para formar obreiros nativos.

Você é um jovem elegante e mesmo envolvido e dedicado a esse projeto missionário atrai olhares femininos. Como você lida com isso?

Costumo dizer que todo jovem que exerce liderança sempre tem pretendentes e admiradores, principalmente as moças. Lá em Moçambique não era diferente, não faltavam. Mas, eu já tinha um projeto definido, e até já havia dito a algumas que não era a hora certa para mim, tinha que estudar e também não percebia de Deus que era o momento. Enquanto estiver aqui no Brasil vou continuar com a mesma postura e propósito. Quero continuar assim até que chegue a hora para não correr o risco de errar. O pastor Jair Chaves costuma dizer assim: “Se você acertar no casamento fez a melhor coisa; mas, se errar vai chorar por toda vida”.

Daniel Buanaher: se preparando para formar obreiros na África

Existe grande diferença do fervor espiritual da sua igreja na África se comparada com as igrejas que você conheceu no Brasil?

Não posso apurar muita coisa, ainda sou imaturo no Brasil. Já estive em uma igreja aparentemente morna (como dizemos lá), sem aquele fervor espiritual; mas, também estive em igreja muito melhor do que temos na África. Isso é relativo, até por conta da forma de adorar dos crentes africanos que é muito diferente, e dos brasileiros também é.

O que os crentes da África esperam dos crentes do Brasil?

Tem um assunto que os crentes africanos não gostam. Muitos missionários que vão à África se prendem a coisas culturais, não bíblicas, como a nossa forma de cultuar, cantar e adorar dançando, por exemplo. Alguns missionários tentam mudar ou até mesmo abolir esse costume. Quando chegam missionários assim o povo africano não gosta nada deles. Se o Brasil continuar enviando missionários para a África, que sejam pessoas que ensinem Bíblia, princípios bíblicos e não costumes brasileiros. A África precisa de missionários!